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Esvaziada.




Venho pensando no vazio e no mundo que não mais existe. Lembrando de quando almoçava todos os dia no mesmo horário, por conta da escola. E também quando pedia dinheiro a mainha pra comprar doces. E dos sábados que eu acordava cedo para viajar para visitar meus avós, das longas horas naquela estrada marrom e verde que sempre me fazia pensar em trilhões de coisas, e da comida da minha voinha, que era uma delícia, e das sobremesas que minha tia fazia. Da risada do meu vô, de ver ele no meio do sítio cuidando dos bois e cavalos, e quando ouvia as expressões mas esquisitas que ele mesmo inventava. Hoje vovô nem mais aqui está, hoje vovó nem enxerga mais e por isso teve que abandonar a cozinha. Ouvir a voz de painho cantando a música que ele mesmo fez pra mim. Sinto falta de acordar cedo dia de domingo com a voz de mainha cantando alto pra justamente acordar todo mundo.
Das copas do mundo que eu minhas irmãs se pintavam e batiam nas panelas, da minha cachorra que latia sem cansar até pararmos de bater nas panelas, do cheiro da cerveja de verdade que meu pai bebia, de não ter ideia do que era violência, de como era ter outra visão de mundo, e com alguns centímetros a menos (não que eu tenha muitos hoje). De quando minha mãe (biológica) vinha passar as férias aqui e me levava pra casa da minha tia, de está com meus irmãos, de andar de metrô. Das sinceras conversas que tinha com minhas amigas, e de como cuidávamos uma das outras. Das peças de teatro, da biblioteca da escola. 
Lembro também de algumas conversas digitadas, de algumas pessoas que apareceram através de uma comunidade do orkut, ou de um tweet. Do tempo que eu tinha para falar com elas.
Saudades das rodas de violão depois da aula, do lanche/jantar daquela lanchonete perto do ponto do ônibus.
Hoje eu sinto falta. Hoje eu sinto falta de muita coisa. De um tempo pra cá venho sendo tomada por um sentimento forte de saudade que é bastante vasto, e antes fosse só saudade, mas isso vem corroído por uma sensação de perda. Perda de mundo. Poucas das coisas que eu vejo hoje são como eu via antes. Sinto falta de ter minha irmã o tempo todo comigo, pedindo pra eu ir na padaria comprar pão antes que mainha chegue, sinto saudade de ter tempo pra fazer o que quero. Da convivência com amigos de verdade, de amigos de verdade. De passar férias no sítio que meus avós tinham, de ouvir minhas irmãs escutarem o mesmo CD todos os dias. De rir desesperadamente, até a barriga doer. De todas as coisas e tudo aquilo que as pessoas eram antes de terem me decepcionado. E, acima de tudo, da minha inocência de alguns anos atrás. Todas essas coisas amarram dentro do corpo e dão um nó que aperta, e aperta tudo.
Eu respiro fundo, solto. Hoje minha felicidade é barata, quase de graça. É só uma questão de força, percebo que ao invés de tá perdendo o mundo eu tô o ganhando, e com asas amarradas ao corpo e os pés no chão.

"E com o tempo essa imensa saudade que sinto, se esvai."

Na roda gigante da vida.


Ora lá em cima, ora aqui em baixo.

roda gigante q
Fotografia e edição: Bia Vieira.

É assim que descrevo a vida, um grande brinquedo, onde quem tá brincando têm que encarar, tudo na brincadeira mesmo. Temos que aproveitar em quanto estamos lá em cima, observar tudo lá do alto, sorrir e sentir o vento leve balançar seu cabelo que dançam felizes numa mesma coreografia. Mas também temos que aceitar quando a roda gira, e vamos lá pra baixo, quase sem querer deixar o encanto do alto, mas somos obrigados. Fazer o que? Só não pode deixar o brilho dos olhos se ofuscarem, têm que sorrir também, ora afinal lá embaixo as coisas também são bonitas, olha só as folhas das árvores espalhas pelo chão. Olha que graça aquela criança sorrindo.
Na roda gigante só brinca quem não têm medo de ser feliz, eu já tive medo, confesso.
Mas comecei à enxergar, as cores bonitas dela, a beleza de sua grandeza. Do quando ela era forte por carregar toda essa gente, ironicamente pensei nisso em quanto estava lá no alto de uma.  E sabe qual é a melhor parte, é olhar tudo isso e perceber o quanto podemos sonhar quando estamos lá. E é assim que a vida é, entre seus alto e baixos, mas sempre com um sonho. O sonho de ser feliz. 

O que eu levei anos pra entender.

Quero contar pra vocês sobre meu antigo diário. Foi uma das poucas vezes que realmente mantive um, escrito durante todo o ano de 2008. Depois disso, passou um tempo, escrevi em alguns outros, mas nada com frequência, afinal eu desabafava no blog. E como sempre fui de guardar lembranças peguei o hábito de sempre voltar a ler as páginas dele, pra gargalhar de algumas coisas realmente estúpidas que eu tinha escrito.

Via: WeHeartIt

Dia desses, peguei o tal diário outra vez. Achei um ou outro texto que eu nunca tinha parado pra ler de novo. Talvez por achar que já sabia do que se tratava. Um deles era sobre péssimas escolhas que eu tinha feito pra mim, sobre saber disso, porque tinha feito e sobre como não conseguia ser diferente. Era um texto grande, apontando uma falha que me fazia sofrer muito e no fim dele tinha a promessa de que a partir daquela última linha eu seria diferente.
Alguns anos se passaram desde que esse texto foi escrito e quando eu parei pra ler, inacreditavelmente aquele "defeito" citado ali ainda me atormentava hoje. Não pude deixar de pensar "sua estúpida, se você já sabia disso aos 14/15 anos, porque não consegue parar de agir assim?". Pensei um pouco, e ainda meio confusa eu sorri.
O defeito do qual eu tanto queria me livrar, era a absurda capacidade de não ficar com raiva das pessoas mesmo quando elas me faziam mal. Queria sentir raiva, pra revidar e machucar da mesma forma, mas sempre acabava achando um dos possíveis motivos dos outros. Fui dormir e ainda estou aqui sem ter muita certeza se esse detalhe do qual eu queria me livrar é bom ou não, mas acho que agora eu vejo o que não via lá atrás: nem tudo se resolve pagando na mesma moeda. E eu tô bem assim, com o tempo você aprende à lidar com certas pessoas, e quer saber? A vida se encarrega de pagar a mesma moeda!

Sobre o medo de ser normal.

Imagem via: weheartit

Leio muitas crônicas pela internet. E nelas, eu vejo muitas, mas muitas garotas mesmo, descrevendo o quanto elas são diferentes das outras e o quanto elas se sentem melhor sendo diferentes do que fazendo o que todo mundo faz. Eu pensava muito assim até um tempo atrás.
Quando eu era bem mais nova e ouvia a Avril Lavigne cantando "anything but ordinary", eu concordava. Um tempo depois, quando eu estava com 13 anos, andava quase fantasiada de ''algo fora do comum'' e me enfurnava em casa enquanto minhas amigas saiam, eu também gostava de dizer que "eu não preciso fazer essas coisas", "ai, eu sou diferente delas", "eu tenho meu próprio estilo, nunca andaria vestida assim igual a todas as outras".
Mas um tempinho passou e no começo do ano passado, a minha promessa de ano novo foi que eu diria "sim" ao que aparecesse pra fazer sem ficar me impondo limites. E deu certo.
De alguma forma eu percebi que talvez eu me afastasse e julgasse todo mundo por simples medo de cair no lugar comum. E é o que eu vejo às vezes, será que não tem gente aí com medo de experimentar o "normal" e gostar disso?
Quando eu comecei a me desapegar desses rótulos, muita gente achou que eu tava mudando, que eu tava pagando minha língua, que eu "tava ficando com mal gosto", que eu tinha mudado e tudo mais, mas sinceramente? Eu continuo sendo como antes, mas agora eu sou um pouco mais. Continuo sendo a única que que prefere Batman do que qualquer desenho de menina, que gosta de batom preto e que tem uma opinião diferente das garotas da minha idade. Sei que tem outras garotas no mundo que se parecem comigo, mas eu continuei sendo "a única" no meu gosto e estilo, e isso é ser fiel à mim mesma, em nenhum momento vou me impedir de sair, socializar e agir normalmente como todo mundo age, e... me divertir, só por causa de uma padrão que não existe!
O que eu quero dizer é que não é só porque você é fã do nirvana e seus amigos preferem Katy Perry, que se você ouvir uma música dela com eles você vai estar traindo seu "movimento grunge" (que só existe na sua imaginação, sinto informar tá?), ou que só porque você prefere usar tênis em vez de salto, seu all star vai fugir de você no dia que você resolver botar um sapato.
Não se julgue uma coisa só! Ou melhor, não se julgue uma coisa tão rasa! Será que que você é tão fraca nos seus conceitos que não aguenta conviver com outros? Ou será que você quer tanto ser de um jeito que tem medo de descobrir que é de outro? Pois pode ficar tranquila: quando você realmente é uma coisa, não precisa se esforçar pra ela aparecer, fica escrito na sua testa sem você saber. E não é proibido mudar, afinal é sempre bom de descobrir de outras formas.
Isso parece ser um texto bem adolescente, e é! Pois eu escrevi para vocês meninas o que eu gostaria de ter escutado ou percebido quando eu tinha a idade de vocês.